Parte 1 de 2

A catarata e a cirurgia, explicadas por quem opera.

Escrevi isto porque a mesma conversa se repete toda semana — e porque quase todo mundo chega tendo ouvido alguma coisa errada. Os títulos são as perguntas que eu mais escuto.

Depois desta, vem a parte sobre as lentes. As duas juntas estão no guia completo.

Parte 1

A catarata e a cirurgia

O que é a catarata

A catarata é o nome da doença mais comum que acontece no cristalino — a lente natural que temos dentro do olho. Ele ajuda a organizar e a focar a luz que entra, para que ela se concentre bem no centro da retina, o local especializado em converter luz em informação neuroquímica.

O olho é uma estrutura complexa: capta a luz, transforma essa luz em produtos bioquímicos na retina e envia essa mensagem ao cérebro — que só então percebe a mensagem como imagem.

Com catarata, o cristalino vai perdendo a transparência natural que deveria ter, além de ficar cada vez maior e mais rígido.

O que a pessoa sente? Por que ela surge?

Bem no início da doença, a maioria das pessoas nem percebe os efeitos de estar com catarata — só dá para ver a alteração em exame oftalmológico. Com o tempo, a pessoa começa a notar a visão turva, embaçada, às vezes como a sensação de uma neblina ou de uma nuvem persistente. Pode ser confundido com lente de óculos suja, que mesmo limpando não resolve. Também pode haver alteração do grau dos óculos de forma anormal, fora do esperado.

Sem tratamento, é esperado que a catarata continue evoluindo, até que a percepção visual fique muito ruim: imagens cada vez menos nítidas, cores mais nubladas, percepção cada vez mais escura — até que, em cataratas muito avançadas, ou maduras, como chamamos tecnicamente, a pessoa chegue a um estado de cegueira no olho acometido.

Em geral, a doença é relacionada à idade: quanto mais idade, maior a chance de a catarata surgir ou de ficar pior. Como os dois olhos têm a mesma idade, é esperado que a pessoa tenha catarata nos dois olhos na mesma época. Ela pode acontecer em um olho só, mas isso geralmente acontece por causa de algum evento que ocorreu naquele olho e não no outro — um traumatismo ou pancada, uma inflamação, uma cirurgia anterior dentro do olho, o uso de medicação em um olho só, ou mesmo uma anatomia diferente entre os olhos, como um olho que tem muito grau e o outro não, desde a infância.

A catarata também pode existir desde o nascimento (catarata congênita) ou aparecer durante a infância, mas essas formas são mais raras. E pode ser acelerada, acontecendo mais cedo que o esperado, em pessoas com alguns tipos de doença — como o diabetes — ou que usam constantemente alguns tipos de medicação, como os corticosteroides (prednisona, budesonida e dexametasona são exemplos dessa classe).

Então posso ficar cego por causa da catarata?

Sim. Inclusive, essa é uma das maiores causas de cegueira do mundo, junto com as ametropias não corrigidas (falta de uso de óculos), o glaucoma, a retinopatia diabética e a degeneração macular relacionada à idade.

Mas calma: a catarata é uma doença reversível. Com o tratamento, a pessoa pode voltar a enxergar normalmente. Mesmo cataratas avançadas têm tratamento, com potencial de devolver a visão. Nem todos os pacientes recuperam a visão completamente, porque isso depende de outros fatores também — mas, em geral, é possível recuperar grande parte da visão e voltar a fazer atividades que não se conseguia mais.

Se eu demorar muito para operar, pode ficar sem condições de cirurgia?

Dificilmente. Na grande maioria das vezes a cirurgia ainda é possível e com boa possibilidade de recuperação visual. Mas a demora pode trazer problemas que surgem com o avanço da doença:

Então é preciso operar com urgência?

Não. A indicação de cirurgia é eletiva — planejada, em data marcada. Em casos de complicação ligada ao avanço da doença, como as que descrevi acima, a cirurgia pode ser indicada de forma urgente, mas são situações raras. Na prática, a imensa maioria dos casos são cirurgias tranquilas, sem necessidade de pressa para o agendamento.

Tenho medo da cirurgia. É muito arriscado?

Não. A cirurgia de catarata é uma das mais seguras da medicina. O risco de complicações é muito baixo — em geral, menor que 0,5% dos casos. E, das complicações mais comuns, a maioria é bem revertida sem grandes consequências para a visão.

Mas não confunda: existe risco, sim, de problema muito grave e irreversível, tanto durante a cirurgia como no pós-operatório, em todos os casos — apesar de ser uma situação extremamente rara. Apesar de rápida, essa é uma cirurgia complexa. Não é simples. Converse sempre com o cirurgião, antes, sobre os detalhes do seu caso específico.

Como funciona a cirurgia? Dói?

Não dói. É um procedimento confortável. Em qualquer técnica de anestesia — apenas com colírios ou injetando anestésico por trás do globo ocular (o bloqueio anestésico) — o paciente fica confortável durante o procedimento.

A diferença entre as duas opções é que uma perde o efeito mais rápido (a de colírios) e a outra tem efeito mais duradouro e precisa de tampão depois, porque o paciente fica sem conseguir piscar o olho de forma adequada. Na segunda também existe risco de complicação durante a injeção do anestésico, por causa da agulha — ainda assim, é muito raro acontecer algum problema.

A técnica mais usada consiste em fazer duas incisões muito pequenas no olho, entre 2 e 3 milímetros, abrir a catarata, aspirá-la e, pela mesma incisão, introduzir a lente planejada. A lente entra dobrada, enrolada, para caber pelo pequeno orifício, e só então se expande. Só muito raramente é necessário algum ponto de sutura ao fim da cirurgia.

Por que precisa ser colocada uma lente? Sempre precisa?

Sim, sempre. O olho tem duas lentes naturais: a córnea e o cristalino. A catarata é uma doença do cristalino e ele precisa ser removido cirurgicamente. Ou seja, estaremos removendo uma das lentes do olho — então precisamos repor outra para substituí-la e manter a função visual organizada.

E já que será necessário colocar uma lente dentro do olho, por que não colocar uma que já resolva o problema de grau, para depois não ser necessário usar óculos? Esse é exatamente o raciocínio. É sobre isso a segunda parte.

Como me preparar para a cirurgia

Pode ir tranquilo e confiante: como eu disse, é uma cirurgia segura e com raras chances de problema. Mas alguns pontos são importantes:

Operei. E agora? Como cuidar do olho operado?

Eu procuro interferir o mínimo possível na rotina dos pacientes, mas alguns itens são importantes no pós-operatório:

Quando minha visão estará totalmente restaurada?

A expectativa de visão final é variável. Depende da técnica cirúrgica, das condições gerais do olho operado (por exemplo, catarata muito madura em pessoa de idade muito avançada é uma combinação que pode levar a uma recuperação mais lenta), de outras doenças no mesmo olho ou sistêmicas — como hipertensão arterial e diabetes — e da lente intraocular implantada.

Depois da boa recuperação da inflamação pós-operatória e da acomodação da lente e das estruturas internas do olho, é o momento de fazer os testes necessários para identificar como ficará a visão de forma mais definitiva. Isso leva entre 15 e 30 dias na maioria dos pacientes.

Quando devo fazer a "limpeza da lente"?

Na verdade, o termo limpeza de lente é impróprio: a lente está dentro do olho e não é possível que ela fique suja. O que acontece é que o local onde ela foi implantada pode ficar turvo por causa de uma cicatrização tardia. Imagine uma fina membrana transparente — a cápsula posterior do cristalino — que fica atrás da lente e vai se tornando mais turva, perdendo a transparência adequada. Isso não acontece em todas as pessoas, e nem sempre acontece nos dois olhos da mesma pessoa.

A correção é fácil, rápida e de risco extremamente baixo, feita em consultório, sem necessidade de nova cirurgia: com um equipamento a laser, faz-se uma abertura central nessa membrana turva para que a luz volte a passar sem obstáculos.

E isso só precisa ser feito uma única vez na vida, porque a abertura central feita com o laser é permanente e não fecha.

Vou precisar de óculos depois da cirurgia?

Pergunta frequente e pertinente — e que deve ser esclarecida antes da cirurgia. A necessidade ou não de óculos depende prioritariamente do tipo de lente implantada. Essa decisão é tomada em conjunto entre cirurgião e paciente e depende de vários fatores: profissão, hobbies, esportes que a pessoa pratica, hábitos diários.

Lente de foco único — monofocal, que ajusta a visão só para uma determinada distância — sempre vai precisar da ajuda dos óculos para as outras distâncias. Se você também tem astigmatismo, mesmo para corrigir uma única distância a lente vai precisar de tecnologia que corrija o astigmatismo. E por aí vai: existem lentes de dois focos, três focos, foco estendido. É o assunto da segunda parte.

Já operei e precisei de óculos, mas quero me livrar deles agora. É possível?

Sim. Mesmo depois da cirurgia, já com uma lente implantada, ainda é possível corrigir o grau residual que sobrou — tanto para longe quanto para perto. Mas o planejamento e as formas de correção dependem muito de qual lente foi implantada, das medidas do formato do olho, de quanto grau será necessário corrigir e da finalidade da correção: ficar sem óculos só para longe, ou para todas as distâncias.

Continua

Parte 2 · As lentes intraoculares

Toda cirurgia de catarata implanta uma lente. Qual lente é a decisão que define se você vai depender de óculos depois — e ela depende do resto do olho, não só do seu desejo.

Ler a parte 2

Texto por Dr. Pedro Ramon Vasconcelos Lourinho — médico oftalmologista, cirurgião de catarata e retina. CRM-CE 13797 · RQE 7608.

Conteúdo informativo. Não substitui a consulta médica, não estabelece diagnóstico e não indica tratamento para nenhum caso em particular.

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Quase todo mundo que chega até mim já ouviu alguma coisa errada sobre catarata — de um vizinho, de um parente, de alguém bem-intencionado. Um texto certo circulando corrige mais do que uma consulta.

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Quando fizer sentido avaliar

Nem todo mundo que lê isto precisa operar agora — e eu prefiro dizer isso do que agendar uma consulta que não vai levar a lugar nenhum. Se a sua visão já mudou alguma coisa na sua rotina, aí sim vale olhar.

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