Escrevi isto porque a mesma conversa se repete toda semana — e porque quase todo mundo chega tendo ouvido alguma coisa errada. Não é material de venda. É o que eu diria a você sentado na minha frente, incluindo as partes desconfortáveis.
Cerca de 15 minutos de leitura. Dá para ler em duas vezes — os títulos são as perguntas.
A catarata é o nome da doença mais comum que acontece no cristalino — a lente natural que temos dentro do olho. Ele ajuda a organizar e a focar a luz que entra, para que ela se concentre bem no centro da retina, o local especializado em converter luz em informação neuroquímica.
O olho é uma estrutura complexa: capta a luz, transforma essa luz em produtos bioquímicos na retina e envia essa mensagem ao cérebro — que só então percebe a mensagem como imagem.
Com catarata, o cristalino vai perdendo a transparência natural que deveria ter, além de ficar cada vez maior e mais rígido.
Bem no início da doença, a maioria das pessoas nem percebe os efeitos de estar com catarata — só dá para ver a alteração em exame oftalmológico. Com o tempo, a pessoa começa a notar a visão turva, embaçada, às vezes como a sensação de uma neblina ou de uma nuvem persistente. Pode ser confundido com lente de óculos suja, que mesmo limpando não resolve. Também pode haver alteração do grau dos óculos de forma anormal, fora do esperado.
Sem tratamento, é esperado que a catarata continue evoluindo, até que a percepção visual fique muito ruim: imagens cada vez menos nítidas, cores mais nubladas, percepção cada vez mais escura — até que, em cataratas muito avançadas, ou maduras, como chamamos tecnicamente, a pessoa chegue a um estado de cegueira no olho acometido.
Em geral, a doença é relacionada à idade: quanto mais idade, maior a chance de a catarata surgir ou de ficar pior. Como os dois olhos têm a mesma idade, é esperado que a pessoa tenha catarata nos dois olhos na mesma época. Ela pode acontecer em um olho só, mas isso geralmente acontece por causa de algum evento que ocorreu naquele olho e não no outro — um traumatismo ou pancada, uma inflamação, uma cirurgia anterior dentro do olho, o uso de medicação em um olho só, ou mesmo uma anatomia diferente entre os olhos, como um olho que tem muito grau e o outro não, desde a infância.
A catarata também pode existir desde o nascimento (catarata congênita) ou aparecer durante a infância, mas essas formas são mais raras. E pode ser acelerada, acontecendo mais cedo que o esperado, em pessoas com alguns tipos de doença — como o diabetes — ou que usam constantemente alguns tipos de medicação, como os corticosteroides (prednisona, budesonida e dexametasona são exemplos dessa classe).
Sim. Inclusive, essa é uma das maiores causas de cegueira do mundo, junto com as ametropias não corrigidas (falta de uso de óculos), o glaucoma, a retinopatia diabética e a degeneração macular relacionada à idade.
Mas calma: a catarata é uma doença reversível. Com o tratamento, a pessoa pode voltar a enxergar normalmente. Mesmo cataratas avançadas têm tratamento, com potencial de devolver a visão. Nem todos os pacientes recuperam a visão completamente, porque isso depende de outros fatores também — mas, em geral, é possível recuperar grande parte da visão e voltar a fazer atividades que não se conseguia mais.
Dificilmente. Na grande maioria das vezes a cirurgia ainda é possível e com boa possibilidade de recuperação visual. Mas a demora pode trazer problemas que surgem com o avanço da doença:
Não. A indicação de cirurgia é eletiva — planejada, em data marcada. Em casos de complicação ligada ao avanço da doença, como as que descrevi acima, a cirurgia pode ser indicada de forma urgente, mas são situações raras. Na prática, a imensa maioria dos casos são cirurgias tranquilas, sem necessidade de pressa para o agendamento.
Não. A cirurgia de catarata é uma das mais seguras da medicina. O risco de complicações é muito baixo — em geral, menor que 0,5% dos casos. E, das complicações mais comuns, a maioria é bem revertida sem grandes consequências para a visão.
Mas não confunda: existe risco, sim, de problema muito grave e irreversível, tanto durante a cirurgia como no pós-operatório, em todos os casos — apesar de ser uma situação extremamente rara. Apesar de rápida, essa é uma cirurgia complexa. Não é simples. Converse sempre com o cirurgião, antes, sobre os detalhes do seu caso específico.
Não dói. É um procedimento confortável. Em qualquer técnica de anestesia — apenas com colírios ou injetando anestésico por trás do globo ocular (o bloqueio anestésico) — o paciente fica confortável durante o procedimento.
A diferença entre as duas opções é que uma perde o efeito mais rápido (a de colírios) e a outra tem efeito mais duradouro e precisa de tampão depois, porque o paciente fica sem conseguir piscar o olho de forma adequada. Na segunda também existe risco de complicação durante a injeção do anestésico, por causa da agulha — ainda assim, é muito raro acontecer algum problema.
A técnica mais usada consiste em fazer duas incisões muito pequenas no olho, entre 2 e 3 milímetros, abrir a catarata, aspirá-la e, pela mesma incisão, introduzir a lente planejada. A lente entra dobrada, enrolada, para caber pelo pequeno orifício, e só então se expande. Só muito raramente é necessário algum ponto de sutura ao fim da cirurgia.
Sim, sempre. O olho tem duas lentes naturais: a córnea e o cristalino. A catarata é uma doença do cristalino e ele precisa ser removido cirurgicamente. Ou seja, estaremos removendo uma das lentes do olho — então precisamos repor outra para substituí-la e manter a função visual organizada.
E já que será necessário colocar uma lente dentro do olho, por que não colocar uma que já resolva o problema de grau, para depois não ser necessário usar óculos? Esse é exatamente o raciocínio. É sobre isso a segunda parte.
Pode ir tranquilo e confiante: como eu disse, é uma cirurgia segura e com raras chances de problema. Mas alguns pontos são importantes:
Eu procuro interferir o mínimo possível na rotina dos pacientes, mas alguns itens são importantes no pós-operatório:
A expectativa de visão final é variável. Depende da técnica cirúrgica, das condições gerais do olho operado (por exemplo, catarata muito madura em pessoa de idade muito avançada é uma combinação que pode levar a uma recuperação mais lenta), de outras doenças no mesmo olho ou sistêmicas — como hipertensão arterial e diabetes — e da lente intraocular implantada.
Depois da boa recuperação da inflamação pós-operatória e da acomodação da lente e das estruturas internas do olho, é o momento de fazer os testes necessários para identificar como ficará a visão de forma mais definitiva. Isso leva entre 15 e 30 dias na maioria dos pacientes.
Na verdade, o termo limpeza de lente é impróprio: a lente está dentro do olho e não é possível que ela fique suja. O que acontece é que o local onde ela foi implantada pode ficar turvo por causa de uma cicatrização tardia. Imagine uma fina membrana transparente — a cápsula posterior do cristalino — que fica atrás da lente e vai se tornando mais turva, perdendo a transparência adequada. Isso não acontece em todas as pessoas, e nem sempre acontece nos dois olhos da mesma pessoa.
A correção é fácil, rápida e de risco extremamente baixo, feita em consultório, sem necessidade de nova cirurgia: com um equipamento a laser, faz-se uma abertura central nessa membrana turva para que a luz volte a passar sem obstáculos.
E isso só precisa ser feito uma única vez na vida, porque a abertura central feita com o laser é permanente e não fecha.
Pergunta frequente e pertinente — e que deve ser esclarecida antes da cirurgia. A necessidade ou não de óculos depende prioritariamente do tipo de lente implantada. Essa decisão é tomada em conjunto entre cirurgião e paciente e depende de vários fatores: profissão, hobbies, esportes que a pessoa pratica, hábitos diários.
Lente de foco único — monofocal, que ajusta a visão só para uma determinada distância — sempre vai precisar da ajuda dos óculos para as outras distâncias. Se você também tem astigmatismo, mesmo para corrigir uma única distância a lente vai precisar de tecnologia que corrija o astigmatismo. E por aí vai: existem lentes de dois focos, três focos, foco estendido. É o assunto da segunda parte.
Sim. Mesmo depois da cirurgia, já com uma lente implantada, ainda é possível corrigir o grau residual que sobrou — tanto para longe quanto para perto. Mas o planejamento e as formas de correção dependem muito de qual lente foi implantada, das medidas do formato do olho, de quanto grau será necessário corrigir e da finalidade da correção: ficar sem óculos só para longe, ou para todas as distâncias.
As lentes intraoculares são próteses — materiais especiais, compatíveis com os tecidos do organismo, que servem para substituir ou melhorar a função de um órgão ou estrutura natural do corpo. Elas ajudam na função de organizar os feixes luminosos que entram no olho, concentrando o foco na parte central da retina. Em outras palavras: elas servem para reduzir ou zerar o grau.
Em algumas situações, um olho com suas estruturas naturais não consegue organizar e focar a luz que entra, com precisão, no centro da retina — na fóvea. É o que acontece em quem tem miopia, hipermetropia, astigmatismo ou catarata. Nas primeiras, óculos ou lente de contato podem ajudar a organizar a luz e melhorar a visão. No caso da catarata, não: mesmo com óculos, a luz não chega à fóvea de maneira organizada, porque o que desorganiza os feixes luminosos está dentro do olho — é a própria catarata.
Na cirurgia de catarata, a lente natural doente é substituída por uma prótese sintética. Aproveita-se, então, para corrigir também o grau que a pessoa usa nos óculos.
Para entender, é preciso saber como o olho funciona. A nossa lente natural tem um comportamento muito especial: ela muda o dia todo, e nós nem percebemos. Mas ela vai ficando mais rígida, não consegue mais se transformar com facilidade, e os diminutos músculos dentro do olho vão funcionando cada vez pior — por isso passamos a precisar de óculos para ver de perto a partir de certa idade, em geral entre 35 e 45 anos.
Uma lente perfeita para substituir uma que se move precisaria também se mover conforme a circunstância: olhar para longe, para distâncias intermediárias — como a tela de um computador de mesa — ou para perto. Isso já foi tentado de várias formas, e ainda é, com lentes de diferentes formatos e dobradiças. Mas às vezes dá certo em algumas pessoas e em outras não. Por causa dessa inconstância, praticamente não se usa.
Qual foi a solução, e a mais usada hoje? Dividir a luz em vários focos. Parte fica reservada para a visão de longe e parte para os outros focos, perto ou intermediário. São as lentes multifocais: a energia luminosa que entra no olho é dividida pela tecnologia da lente.
Isso funciona? Funciona, e bem. A maior parte das nossas atividades acontece em boa luminosidade, e a maior parte da divisão é concentrada na visão de longe — então, mesmo em ambiente mal iluminado, a visão para andar, dirigir e praticar esporte é preservada. Como para qualquer pessoa, ler ou escrever no escuro é difícil; com essas lentes também será, e talvez um pouco pior que o normal, porque a energia luminosa para perto está pouca — o ambiente está em penumbra — e ainda dividida com a de longe.
E se colocarmos uma lente monofocal de longe em um olho e uma de perto no outro? Esse raciocínio pode ser usado, sim, e é uma boa alternativa em alguns casos. Pode parecer estranho, mas a maior parte das pessoas se adapta bem e prefere não usar óculos.
Se você tem astigmatismo, isso será particularmente importante na decisão da lente, porque ela precisará ser mais personalizada para o seu caso. Lentes com correção de astigmatismo integrada — de qualquer tipo — precisam ser personalizadas para o grau e o eixo específicos do astigmatismo daquele olho. E isso tem um custo. Mas, na grande maioria dos casos, a correção é excelente. Vale sempre conversar sobre essa possibilidade.
Aqui é preciso alinhar as expectativas. Nem todas as pessoas reúnem as condições necessárias para fazer bom proveito de uma lente de alta tecnologia. As condições das outras estruturas do olho são levadas em consideração para decidir a melhor lente para cada caso.
Se uma pessoa tem problema na retina, dividir a luz em vários focos não é uma boa ideia — porque o local que vai receber o foco, o centro da retina, não está em bom funcionamento. Nesse caso, é melhor que o foco receba a energia total de cada distância, sem dividir a luz.
O mesmo raciocínio vale para várias situações: olho seco, doenças da córnea, da pupila e da íris, do vítreo, da retina e das vias ópticas neurais.
É por isso que eu olho a retina antes de decidir a lente. Não é a mesma coisa que dizer que a retina está normal: é saber, com o exame na mão, se aquele olho aguenta ter a luz dividida — ou se dividir vai custar nitidez que não volta.
Primeiro, é preciso entender se é uma condição que permite cirurgia e uso de lentes. Depois, quais são as suas expectativas e intenções com a cirurgia — e para isso é preciso entender bem a sua rotina, a sua profissão, os seus hobbies, as suas práticas diárias obrigatórias, como dirigir. Na verdade, é preciso saber como você usa a sua visão no cotidiano, e no que tem interesse ou obrigação de usar.
As medidas anatômicas e de funcionamento dos dois olhos são elementos técnicos essenciais para o planejamento — e para isso precisamos de alguns equipamentos. Lembre-se: a nossa visão é uma integração das imagens capturadas pelos dois olhos. Os resultados finais só são considerados depois que ambos estão operados e com as lentes já implantadas.
Não. Na verdade, até pode — mas você não vai querer arriscar. Quando se implanta uma lente intraocular, acontece um processo cicatricial que abraça e gruda a lente às estruturas dentro do olho. Tentar desgrudar para extraí-la, e ainda colocar outra, é uma cirurgia tecnicamente difícil e muito menos previsível.
Já existem lentes intraoculares para serem usadas dentro do olho mesmo sem catarata, sem precisar retirar o cristalino, e também para quem já tem uma lente implantada e deseja uma alternativa. São conversas para a consulta.
É extremamente raro. Mesmo em pequenos acidentes de baixo impacto ou em prática esportiva, é muito difícil acontecer problema com a lente intraocular. Mas nunca é demais ter cuidado e proteger os olhos, mesmo quem nunca passou por cirurgia.
As lentes intraoculares são planejadas para serem permanentes e estáveis. Quando bem indicadas e implantadas de forma adequada, não interferem nas outras estruturas oculares e não predispõem ao surgimento de doenças nem a prejuízo da visão.
Texto por Dr. Pedro Ramon Vasconcelos Lourinho — médico oftalmologista, cirurgião de catarata e retina. CRM-CE 13797 · RQE 7608.
Conteúdo informativo. Não substitui a consulta médica, não estabelece diagnóstico e não indica tratamento para nenhum caso em particular.
Quase todo mundo que chega até mim já ouviu alguma coisa errada sobre catarata — de um vizinho, de um parente, de alguém bem-intencionado. Um texto certo circulando corrige mais do que uma consulta.
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Nem todo mundo que lê isto precisa operar agora — e eu prefiro dizer isso do que agendar uma consulta que não vai levar a lugar nenhum. Se a sua visão já mudou alguma coisa na sua rotina, aí sim vale olhar.
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