Parte 2 de 2

As lentes: por que a escolha depende do resto do olho.

Toda cirurgia de catarata implanta uma lente. Qual lente é a decisão que define se você vai depender de óculos depois — e ela não depende só do que você quer. Depende de como o seu olho lida com a luz.

Se você ainda não leu, a parte 1 explica a doença e a cirurgia. As duas juntas estão no guia completo.

Parte 2

As lentes intraoculares

O que são, e para que servem

As lentes intraoculares são próteses — materiais especiais, compatíveis com os tecidos do organismo, que servem para substituir ou melhorar a função de um órgão ou estrutura natural do corpo. Elas ajudam na função de organizar os feixes luminosos que entram no olho, concentrando o foco na parte central da retina. Em outras palavras: elas servem para reduzir ou zerar o grau.

Em algumas situações, um olho com suas estruturas naturais não consegue organizar e focar a luz que entra, com precisão, no centro da retina — na fóvea. É o que acontece em quem tem miopia, hipermetropia, astigmatismo ou catarata. Nas primeiras, óculos ou lente de contato podem ajudar a organizar a luz e melhorar a visão. No caso da catarata, não: mesmo com óculos, a luz não chega à fóvea de maneira organizada, porque o que desorganiza os feixes luminosos está dentro do olho — é a própria catarata.

Na cirurgia de catarata, a lente natural doente é substituída por uma prótese sintética. Aproveita-se, então, para corrigir também o grau que a pessoa usa nos óculos.

Quais são as opções? Como funcionam?

Para entender, é preciso saber como o olho funciona. A nossa lente natural tem um comportamento muito especial: ela muda o dia todo, e nós nem percebemos. Mas ela vai ficando mais rígida, não consegue mais se transformar com facilidade, e os diminutos músculos dentro do olho vão funcionando cada vez pior — por isso passamos a precisar de óculos para ver de perto a partir de certa idade, em geral entre 35 e 45 anos.

Uma lente perfeita para substituir uma que se move precisaria também se mover conforme a circunstância: olhar para longe, para distâncias intermediárias — como a tela de um computador de mesa — ou para perto. Isso já foi tentado de várias formas, e ainda é, com lentes de diferentes formatos e dobradiças. Mas às vezes dá certo em algumas pessoas e em outras não. Por causa dessa inconstância, praticamente não se usa.

Qual foi a solução, e a mais usada hoje? Dividir a luz em vários focos. Parte fica reservada para a visão de longe e parte para os outros focos, perto ou intermediário. São as lentes multifocais: a energia luminosa que entra no olho é dividida pela tecnologia da lente.

Isso funciona? Funciona, e bem. A maior parte das nossas atividades acontece em boa luminosidade, e a maior parte da divisão é concentrada na visão de longe — então, mesmo em ambiente mal iluminado, a visão para andar, dirigir e praticar esporte é preservada. Como para qualquer pessoa, ler ou escrever no escuro é difícil; com essas lentes também será, e talvez um pouco pior que o normal, porque a energia luminosa para perto está pouca — o ambiente está em penumbra — e ainda dividida com a de longe.

E se colocarmos uma lente monofocal de longe em um olho e uma de perto no outro? Esse raciocínio pode ser usado, sim, e é uma boa alternativa em alguns casos. Pode parecer estranho, mas a maior parte das pessoas se adapta bem e prefere não usar óculos.

Se você tem astigmatismo, isso será particularmente importante na decisão da lente, porque ela precisará ser mais personalizada para o seu caso. Lentes com correção de astigmatismo integrada — de qualquer tipo — precisam ser personalizadas para o grau e o eixo específicos do astigmatismo daquele olho. E isso tem um custo. Mas, na grande maioria dos casos, a correção é excelente. Vale sempre conversar sobre essa possibilidade.

São muitas opções. Qual a melhor para mim?

Aqui é preciso alinhar as expectativas. Nem todas as pessoas reúnem as condições necessárias para fazer bom proveito de uma lente de alta tecnologia. As condições das outras estruturas do olho são levadas em consideração para decidir a melhor lente para cada caso.

O ponto que quase ninguém explica

Se uma pessoa tem problema na retina, dividir a luz em vários focos não é uma boa ideia — porque o local que vai receber o foco, o centro da retina, não está em bom funcionamento. Nesse caso, é melhor que o foco receba a energia total de cada distância, sem dividir a luz.

O mesmo raciocínio vale para várias situações: olho seco, doenças da córnea, da pupila e da íris, do vítreo, da retina e das vias ópticas neurais.

É por isso que eu olho a retina antes de decidir a lente. Não é a mesma coisa que dizer que a retina está normal: é saber, com o exame na mão, se aquele olho aguenta ter a luz dividida — ou se dividir vai custar nitidez que não volta.

O que eu preciso saber para decidir a lente

Primeiro, é preciso entender se é uma condição que permite cirurgia e uso de lentes. Depois, quais são as suas expectativas e intenções com a cirurgia — e para isso é preciso entender bem a sua rotina, a sua profissão, os seus hobbies, as suas práticas diárias obrigatórias, como dirigir. Na verdade, é preciso saber como você usa a sua visão no cotidiano, e no que tem interesse ou obrigação de usar.

As medidas anatômicas e de funcionamento dos dois olhos são elementos técnicos essenciais para o planejamento — e para isso precisamos de alguns equipamentos. Lembre-se: a nossa visão é uma integração das imagens capturadas pelos dois olhos. Os resultados finais só são considerados depois que ambos estão operados e com as lentes já implantadas.

Se não ficar bem, ou eu quiser trocar, a lente pode ser trocada?

Não. Na verdade, até pode — mas você não vai querer arriscar. Quando se implanta uma lente intraocular, acontece um processo cicatricial que abraça e gruda a lente às estruturas dentro do olho. Tentar desgrudar para extraí-la, e ainda colocar outra, é uma cirurgia tecnicamente difícil e muito menos previsível.

Já existem lentes intraoculares para serem usadas dentro do olho mesmo sem catarata, sem precisar retirar o cristalino, e também para quem já tem uma lente implantada e deseja uma alternativa. São conversas para a consulta.

Pode dar algum problema com a lente muito tempo depois?

É extremamente raro. Mesmo em pequenos acidentes de baixo impacto ou em prática esportiva, é muito difícil acontecer problema com a lente intraocular. Mas nunca é demais ter cuidado e proteger os olhos, mesmo quem nunca passou por cirurgia.

As lentes intraoculares são planejadas para serem permanentes e estáveis. Quando bem indicadas e implantadas de forma adequada, não interferem nas outras estruturas oculares e não predispõem ao surgimento de doenças nem a prejuízo da visão.

Texto por Dr. Pedro Ramon Vasconcelos Lourinho — médico oftalmologista, cirurgião de catarata e retina. CRM-CE 13797 · RQE 7608.

Conteúdo informativo. Não substitui a consulta médica, não estabelece diagnóstico e não indica tratamento para nenhum caso em particular.

Se isso ajudou alguém que você conhece

Mande este texto para essa pessoa.

Quase todo mundo que chega até mim já ouviu alguma coisa errada sobre catarata — de um vizinho, de um parente, de alguém bem-intencionado. Um texto certo circulando corrige mais do que uma consulta.

Copiar o link

Sem cadastro, sem formulário. É só o texto.

Quando fizer sentido avaliar

Nem todo mundo que lê isto precisa operar agora — e eu prefiro dizer isso do que agendar uma consulta que não vai levar a lugar nenhum. Se a sua visão já mudou alguma coisa na sua rotina, aí sim vale olhar.

Ver se o meu caso se aplica Quem sou
Falar no WhatsApp